“A Diaba e sua filha” e sobre livros “para crianças”

Há em Moçambique um provérbio que diz: a vida de cada um é um rio. Assim pensado o tempo que nos cabe para viver é alimentado por uma fonte eterna: a infância. E assim dita, a infância não é um tempo passado, mas a capacidade infinita de nos renovarmos entre nascente e estuário.

Com uma orelha escrita por Mia Couto, quem pode resistir a um livro assim?
Mas, first things first : fui ao bota fora da Cosac Naify nesse domingo. Fiquei bem impressionada com a quantidade de pessoas abrindo embalagens e jogando os plásticos no chão. Não sei, achei algo de violento naquilo tudo.
Adotei uma tática de só folear o que já estava aberto.
Já tinha em mente aproveitar pra comprar ‘livros infantis’, pois faz tempo que não lia algum (e o curso de formação pra exposição em que estou trabalhando me lembrou o quanto gosto de lê-los).

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Quando vi A diaba e sua filha, já peguei. Mia Couto comenta na quarta capa: “NDiaye escreve sobre os nossos medos e o modo como eles são coletivamente construídos. Escreve sobre a necessidade de classificarmos os outros e os arrumarmos em bons e maus, em anjos e monstros. Nestas páginas se inscreve, enfim, a facilidade em culparmos e diabolizarmos os que são diferentes e o modo como os sinais de aparência (…) se erguem como marca de fronteira entre os ‘nossos’ e os ‘do lado de lá’.”.

Li hoje, com certeza um dos livros que mais gostei nos últimos tempos. Não sei como comentar sobre ele, a não ser que, como escreve Mia Couto na orelha do livro ” (…) a ideia de que aquilo que chamamos literatura infantil é, muitas vezes, un estereótipo fundado numa falsa menoridade da criança e na verdadeira arrogância do adulto.”.

Achei esse livro muito rico para se trabalhar a questão da tolerância, das diferenças, da população em situação de rua, e de como nós olhamos para os outros e fazemos leituras do que está ao nosso redor. São elas reducionistas? Práticas? Justas?

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Metrô

Ultimamente tenho andado quase que diariamente de metrô. Passo por três linhas diferentes para chegar ao trabalho. Junto-me à multidão, na marcha dos pinguins. Tento manter um mínimo de respeito, perguntando “Você também vai descer na próxima?” – numa tentativa de olho no olho honesto, pra quebrar o constrangimento do contato-mais-que-próximo e com possível troca de fluidos e odores.

Mas muitas vezes me pego numa situação de esgotamento e de escolhida surdez, talvez como mecanismo de defesa. Nessas horas, gosto de exercitar a observação dos outros, mesmo sem ouvir o que se passa. Lembrei-me então desse texto que escrevi há três anos, e que republico aqui neste blog.

nutella congelada

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foto desfocadamente minha

Metrô

Éramos seis quando ele entrou. Cada um em um banco verde, todos muito bem condicionados, deixando os azuis livres. A moça de branco mexia no celular, e, muito embora estivesse de frente para o rapaz com fones de ouvido, seus olhares não se cruzaram enquanto eu ali estava.

Havia mais outro homem, novo ainda, vinte e poucos anos; ele não desgrudou os olhos do celular, ou melhor, apenas quando a última estação foi anunciada por aquela familiar, mas nem por isso doce voz mecânica. Bom, isso só foi depois. Tinha aquela que ficava olhando pela janela, aparentemente entretida, talvez observasse a proximidade do trem com a parede, ou procurasse por aqueles sinais que nos lembram que pessoas andam por aqueles túneis.

Um senhor de meia idade sentava-se num dos assentos posicionados lateralmente, mal se mexia, como que concentrado em algo distante. Quando próximos do terminal, ele…

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