Das nossas palavras

Ressucito aqui um texto que escrevi há um bom tempo, mas que é muito querido ainda, post original. Nem corro o risco de reler pra não começar a alterar e de repente transformá-lo em alguma outra coisa.

As nossas palavras

                Três horas da tarde é um horário interessante para se marcar o que não tem nome ainda. As nuvens esparsas no céu dosavam a quantidade de luz, mas o calor do sol era o mesmo de um céu aberto. O vestido com tons de rosa e azul lhe conferia um aspecto juvenil que os pés enfiados na sandália tentavam disfarçar. Estranhamente, era uma figura solitária naquele amplo vão. As outras pessoas mantinham-se a certa distância, aglutinadas nos cantos. Os ombros eram tensos e o relógio exausto de ser conferido a cada três minutos.

Sim, ela era toda insegurança. As mãos escorriam o suor teimoso que o vestido novo parecia não dar conta de secar. Vestido novo que se arrependeu de ter escolhido, pois em sua mente a cena da mosca sendo arrastada para o centro do pires* se repetia exatamente como no conto que lera. A mente inquieta a bombardeá-la com questionamentos – “devia ou não?” “Mas e se…?”; “Não seria melhor se…?” – por que não cancelara a tempo? Tempo, que se arrastava sofregamente feito um velho senhor e nada, nenhum sinal dele.

Sinal foi o quase suspiro misto de susto que ela tomou quando ele veio, de repente, tomando-lhe o braço por trás. Sem tempo de se recompor de suas digressões sequer esboçou um sorriso. Mas se não sorria com a boca, seus olhos eram quase alegria, alívio, sim, de não ter sido deixada sozinha. Sozinha não estava mais, porém era tão difícil pensar no que falar. Se antes estava imersa em marés de pensamentos, agora sofria para encontrar a justa medida: nem quieta demais nem demasiadamente falante. O necessário para manter o interesse e dar margem ao diálogo.

Como fazer, se as palavras lhe fugiam em estripulias, deixando-a com o olhar meio perdido, meio tonto? Nem tonto, nem pronto; as palavras dele fluíam como rios tépidos, capazes de lhe arrancar instantâneo afeto, e os olhos dela eram cristalinos de afeição. Afeição que se mostrava a pulsar no ritmo mais frenético que o normal, fazendo sua face corar, na justa medida. Medida, quão de si mostrar na primeira vez? Quanto revelar nesse primeiro trocar de olhares, risos e lugares?

O ritmo era ditado por ele que a conduzia com seus passos firmes, mas sem posicionar-se muito à frente. Suficiente para lhe assegurar que o terreno era firme, que podia pisar sem medo. E as palavras dele assim convidavam as dela, a se exporem, a se revelarem. As palavras dela quase não lhe saíam, de início, mas pouco a pouco foram deslizando, se mostrando, se abrindo.

E naquele momento o vestido novo não mais incomodava. A brisa leve secava o suor de suas mãos. As vozes da insegurança silenciaram em sua cabeça. O tempo não corria feito adolescente enérgico, mas não se arrastava como velho letárgico – fluía. Era toda concentração naquele instante, não se fazia necessário questionar. Eram ambos a justa medida um para o outro. E as palavras dela, ao saírem, deixavam de lhe pertencer, pois às dele iam se juntar tão logo soltas no ar. Elas não mais lhe pertenciam, se descolavam e formavam algo novo; nem só dele, nem só dela, mas na justa medida.

 *o conto a que se é feito referência é “O vestido novo” de Virginia Woolf – que, em certa medida inspirou essa cena, encontrado em Contos Completos Virginia Woolf. Fixação de textos e notas Susan Dick tradução Leonardo Fróes. 2. ed. – São Paulo: Cosac Naify, 2005.    
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