O Homem Duplicado – José Saramago

Terminei de ler essa semana o livro O Homem Duplicado do José Saramago. Confesso que fazia um tempo que não tinha essa sensação boa de satisfação que a gente tem quando termina um livro. O que é meio que absurdo, pois ganhei este livro no ano passado, na Festa do Livro da USP, de presente da minha mãe. Ah, inclusive foi um trecho dele que eu publiquei há uns posts atrás aqui no blog.

Eu tive a impressão de que 70 % do livro é em um ritmo mais lento, dos trinta em diante a história corre bem mais rápido e termina em desdobramentos nas últimas 30 páginas que nem imaginávamos. Essas aproximações são apenas aproximações mesmo, viu? Não manjo nem um pouco de contas. 😛

Uma das coisas mais interessantes é o flerte do fantástico com situações com as quais os leitores podem se identificar, como a relação de Tertuliano Máximo Afonso “sossegado professor de história” com os colegas de trabalho, sua conduta profissional, vida amorosa e relação com a mãe.

Selecionei alguns trechos pra compartilhar aqui. O primeiro deles trata justamente sobre as palavras, é da ocasião de uma conversa de Tertuliano com a mãe (na minha edição da Companhia das Letras isso se dá na página 209:

As palavras são o diabo, nós a crer que só deixamos sair da boca para fora aquelas que nos convêm, e de repente aparece uma que se mete pelo meio, não vimos de onde surgiu, não era para ali chamada, e, por causa dela, que não é raro termos depois dificuldade em recordar , o rumo da conversa muda bruscamente de quadrante, passamos a afirmar o que antes negávamos, ou vice-versa (…)

Olha, não vou interpretar o livro, vou me restringir a dizer que gostei bastante. Também não vou analisar nada. No entanto, algo que me chamou atenção foi o modo que as mulheres aparecem nesse livro: Maria da Paz (meio de se chegar a Antonio Claro), a mãe (que o impulsiona, é muito mais retratada como forte do que como frágil, uma ‘Cassandra’), Helena – quando lerem, ou se já leram, pensem nisso ou reparem. Ou se você tem alguma impressão diferente, deixe aqui nos comentários pra conversarmos. 🙂

Uma prévia: na página de 260, a mãe de Tertuliano, dona Carolina, diz:

Há uma parte de ti que dorme desde que nasceste, e o meu medo é que um dia destes sejas obrigado a acordar violentamente.

Ao que Tertuliano responde:

O que a mãe tem é vocação para Cassandra

E isso já diz bastante.

Tem também um trecho em que a história está assim (p. 262):

Chegou ao fim da tarde, arrumou o carro em frente da porta, e ágil, flexível, bem-disposto, como se não tivesse acabado acabado de fazer, sem parar uma só vez, mais de quatrocentos quilómetros, subiu a escada com a ligeireza de um adolescente, nem dava pelo peso de uma mala que, como é natural, carregava mais à volta que à ida, e pouco lhe faltou para entrar em casa em passo de dança.

Ou seja, estamos embarcados naquela sensação desse personagem, mal digerimos esse trecho lindamente escrito, quando logo, em seguida (e em se tratando de Saramago é em seguida mesmo) a história pausa e temos aquele “momento metalinguagem” que eu adoro!

De acordo com as convenções tradicionais do género literário a que foi dado o nome de romance e que assim terá de continuar a ser chamado enquanto não se inventar uma designação mais conforme às suas actuais configurações, esta alegra descrição, organizada numa sequência simples de dados narrativos em que, de modo deliberado, não se permitiu a introdução de um único elemento de teor negativo, estaria ali, arteiramente, a preparar uma operação de contraste que, dependendo dos objectivos do ficcionista, tanto poderia ser dramática como brutal ou aterradora, por exemplo, uma pessoa assassinada no chão e ensopada no seu próprio sangue, uma reunião consistorial de almas do outro mundo (…)

Uma verdadeira aula, não?

Pra quem gostou e pensa em adquirir o livro, fiz uma breve pesquisa:

Ah, pesquisando pra escrever esse post, descobri que foi feito um filme baseado no livro, o nome do filme em inglês é Enemy (inimigo) o que, na minha opinião já é um estrago… O filme foi dirigido por Denis Villeneuve, e tem como protagonista Jake Gyllenhaal, para mais informações, veja a ficha dele no IMDB. Será que vale a pena assistir?

cartaz do filme daqui.

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2 comentários sobre “O Homem Duplicado – José Saramago

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