Sobre crianças, arquitetura e escola de educação infantil

Estava eu em um dos grupos do facebook sobre educação do qual faço parte, quando me deparei com a postagem desse texto.  Sem esperar muito. dei uma olhada na matéria e pulei direto pro TED, que insiro aqui. E, apesar das piadinhas (algo que me incomoda um pouco em TEDs, mas que eu entendo totalmente a necessidade) gostei bastante de vários pontos, pois dialogam com o que eu penso sobre as escolas de educação infantil, minha experiência como educadora na exposição Lugares (Stela Barbieri – Sesc Belenzinho fevereiro-maio 2015) e tudo mais.

Ufa, acho que o primeiro parágrafo ficou bem confuso, tudo-junto-e-misturado, mas ele sintetiza um pouco de tudo que está se cruzando e interligando na minha cabeça. Vou em ordem cronológica.

Uma pequena experiência que tive em uma escola infantil particular bilíngue foi como “entrevista” para uma vaga como teacher de crianças de 4 anos. A escola possui nome de um ‘pensador da educação’ mas não segue exatamente os pensamentos do mesmo. Mandei um email para uma vaga, e me chamaram pra entrevista, que no fim das contas foi uma imersão de 4 horas na escola. Durante essas quatro horas fui deixada sozinha com as crianças e tinha que falar primeiro em inglês e repetir (“só se elas parecerem não entender”) em português.

Foi uma primeira experiência na educação formal bem confusa pra mim. Depois me colocaram em uma quadra, onde as crianças não estavam lá para correr, mas para brincar com peças de um tipo de Lego. Alguns meninos estavam muito empolgados, correndo de um lado a outro, e usando a trave do gol como base para um carro flutuante que estavam construindo. Encurtando a história: no fim das contas, ele terminou sendo colocado de castigo, sentado num canto do lado dos armários das professoras e – quando fui ser entrevistada, a entrevistadora pediu pra ele me dar a cadeira e mandou ele ficar no chão (“I said on the floor”).

Antes de tudo, não estou aqui para julgar ninguém, mas no momento em que chegamos à parte da entrevista, comecei a falar coisas do tipo, achar o horário ruim etc, pois não achei que fosse conseguir trabalhar lá depois de ver essas coisas… Foi uma mistura de sentimentos: primeiro ficar muito feliz por ter sido chamada para a entrevista, poder usar o conhecimento de língua inglesa num trabalho, poder finalmente na vida trabalhar com crianças, e, de repente, fui jogada dentro de sala de aula e presenciei questões com as quais não sabia lidar.


Cheguemos ao presente, depois da minha primeira experiência como educadora numa exposição de arte contemporânea. Foi um verdadeiro presente poder iniciar minha atuação num locus tão privilegiado que foi a exposição “Lugares (para ler e para desenhar)” da artista plástica, educadora, contadora de histórias e pessoa maravilhosa Stela Barbieri.

Saiba mais sobre o projeto lugares aqui (portfólio disponível para download, do site da Stela), por se tratar de uma obra oficina, pude atuar como educadora-propositora-facilitadora e receber grupos diversos, inclusive crianças. Pretendo escrever um post só falando da minha vontade e decisão de ser educadora, então não entrarei em detalhes sobre a minha prática e jornada aqui.

Em uma das propostas de visita, eu convidava as crianças a desenhar um lugar para recebermos as pessoas, como seria, depois da nossa vivência no Lugar para Desenhar (onde o desenho se dava no espaço, com objetos sobre um tablado de madeira). Um dos aspectos que mais me chamou atenção foi a opinião deles sobre aquele lugar, e captei falas muito significativas.

“Esse lugar parece uma casa”, “Se aqui fosse uma casa, eu ia dormir ali” – “e eu ali, do seu lado”. A arquitetura, escolha de cores e materiais, todo o projeto foi muito bem pensado, e as crianças se sentiam à vontade e observavam tudo isso. Como pude ver nesse desenho:

desenho mobília (sim, a sorridente sou eu)

Em uma outra proposta, trabalhamos com a ideia de criar um lugar que gostaríamos que existisse na escola. As crianças estudam numa escola pública de período integral, que não possui muita área “ao ar livre”. Elas desenharam coisas como uma sala dos desejos (onde os desejos feitos se materializariam), sala da gravidade zero, piscina e coisas assim.

Dar a oportunidade delas poderem criar, do zero um lugar que desejassem era incrível.

Um dia, num desses grupos atendido por outra educadora, quando estavam todos em grupo no Lugar para Desenhar, uma das meninas teve problemas em dividir as coisas com as outras. Seu comportamento foi agressivo, e ela falou palavrões, ameaçando as colegas. Após a visita, fui observar o desenho feito por ela: um balão em formato de coração.


Tudo isso para falar que gostaria de mais escolas como essa do TED.

Um dos pontos que me toca na fala dele é que para mim é uma dificuldade saber até que ponto podemos deixar as crianças correrem riscos, pois se trata de uma visita pontual da escola na exposição, e normalmente (e infelizmente) aquela é a primeira e única vez em que elas estão nos vendo e experimentando aquele lugar.

Mas a fala de Takaharu Tezuka, me fez pensar em tudo isso, na necessidade de espaço, de cair, ralar o joelho, sujar a roupa de terra… E se não temos espaço pra isso em casa, nem na cidade, e a rua é vista como um perigo atualmente, então essas crianças deveriam ter pelo menos a escola. E a escola deveria ser assim, como um lugar também de liberdade. Porque se não é, se não estamos atentos, deixamos passar coisas incríveis que os olhares das crianças nos mostram.

O ambiente é visto como algo que educa a criança; na verdade ele é considerado o “terceiro educador”, juntamente com a equipe.

Lella Gandini (1999), citação retirada do livro de Stela Barbieri Interações: onde está a arte na infância (recomento muito!). A editora, Blucher, disponibiliza uma preview aqui.


Esse primeiro texto ficou meio confuso, mas queria muito escrever sobre isso! E, é por essas e outras que quero muito trabalhar com primeira infância, e estou pensando em fazer pedagogia.

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