Hora de almoço

Hora de almoço
Saída da escola
A procura da moeda

A caminhada até o trem
A alegria de voltar pra casa
Vontade de ir ver a vó

“Gosto tanto da minha vozinha”
Isso filho, que bom
A sua vozinha tem que estar sempre no seu coração.

“Mamae, quero ver a minha vozinha
Tenho saudades e gosto tanto dela”
Ele diz, na sua voz de cinco anos de idade, uniforme da escola da prefeitura.

Mas já tinha mais de mês
Que a vozinha havia ido
Pra sempre, de vez
Ela havia partido

Não carecia explicação
nem sim, nem não
Só havia um dever:
O de guardar no coração

Porque era mais que meio dia
Na rua Mauá
Onde as grades são os travesseiros
Que tem pra se deitá

Anúncios
Nota

Viagem

Estava no ônibus que passa na consolação e vai até dentro da USP. Era tempo de maluquice, sair de Cotia bem cedinho – eu e meu pai nos denominávamos “madrugadores da Granja”, pra ir pra São Paulo. Aulas pela manhã no curso de Letras do Mackenzie, almoço lá mesmo e ônibus pra USP, aula das 14h às 18h do curso de História.

Estava sentada na parte da frente, segunda fila, assento da janela. Uma senhorinha entra carregando uma mala bem, bem grande, com alguma dificuldade. Ela senta-se ao meu lado, coloca a mala no espaço em frente ao assento e levemente encolhe as pernas.

“Eu vou viajar” – ela me diz, com orgulho, olhando pra mala.

“É a primeira vez que vou visitar os meus parentes, está tudo certo, combinei com a patroa” – eu sorrio, olho pra ela e olho pra mala.

Seguimos o resto da viagem em silêncio – mas não foi um silêncio constrangedor. Foi um silêncio em que eu tinha a certeza de que ela se imaginava viajando com sua mala nova, visitando os parentes, pela primeira vez.

 

Status

Delicada, eu?

Atrasada para o Encontro Paulista de Museus, cheguei na estação Portuguesa-Tietê. Não fui abençoada com um senso de direção primoroso, ao que fui andando meio perdida e tentando encontrar alguma placa.

Avistei um grupo de três seguranças, me aproximei meio sem jeito, como sempre ao abordar alguém que esteja em um grupo, diringindo-me ao mais velho deles, que olhava em minha direção:

“Bom dia” – falei como sempre falo acho, mas saiu como quem diz “licença, desculpe incomodar”.

“Bom dia, simpatia! Nossa, que delicada que você é! Continue sempre assim, você falou de um jeito tão delicado…”

Fiquei envergonhada, sem saber se devia agradecer ou não e lembrei rapidamente que muita gente não me acha delicada. Fui com a saída mais fácil, esbocei um sorriso, e perguntei qual era a saída da Rua Voluntários. Ele gentilmente me indicou. Agradeci e desejei novamente um bom dia.

Ah, se todos os dias começassem com pequenas e agradáveis surpresas espontâneas assim…