Um daqueles textos que fazem diferença na vida

Eu tive a alegria de conseguir me inscrever no curso “Introdução à Museologia Social” com o Professor Mario Chagas, que acontece no Centro de Pesquisa e Formação do SESC.

O pessoal organizou uma apostila com diversos textos, sendo um deles o “Reflexões sobre a Nova Museologia” de Maria Célia Teixeira Moura Santos. E, sabe quando o texto faz diferença na sua vida? É como se, enquanto você vai lendo, vários “cliques” se dessem na sua cabeça e esclarecessem temas e estabelecessem relações que antes você não entendia/enxergava. Além disso, é como se contribuísse para pensar em questões que tem flutuado na sua cabeça, dia-a-dia, e tomadas de decisão ultimamente.

Resolvi então compartilhar um pouco desse texto aqui no blog, também porque ela traz vários autores que são bons pra quem quiser se aprofundar no tema.

Um dos momentos fundadores da Nova Museologia é a Mesa Redonda de Santiago, Chile 1972.

Em Santiago, é dado o pontapé inicial para uma ação museológica que considera o sistema lingüístico empregado pelas comunidades, reconhece que o ser humano move-se em um mundo essencialmente simbólico e compreende, também, que o cotidiano não é apenas um resíduo.

Mais adiante, sobre a noção de museu integral,

(…) a própria ideia de “meio” também se transformou: “é um sistema global de interferências biopsicossociais”

Gostaria de ter tido acesso a essa nova definição quando meus professores do fundamental II questionavam se era meio ambiente, e por que não “ele todo”.

Portanto, começa-se a delinear, em Santiago (…) o que, no nosso entender, é o marco mais significativo da evolução do processo museológico na contemporaneidade: a passagem do sujeito passivo e contemplativo para o sujeito que age e transforma a realidade.

Maria Célia cita ainda esse trecho que me deixou muito interessada a ler o livro do Kosik Dialética do Concreto (1976):

…a dialética da atividade e da passividade do conhecimento humano manifesta-se sobretudo no fato de que o homem, para conhecer as coisas em si, deve primeiro transformá-las em coisas para si; para conhecer as coisas como são independentemente de si, tem primeiro de submetê-las à própria práxis; para poder constatar como são elas quando não estão em contato consigo, tem primeiro de entrar em contato com elas. O conhecimento não é contemplação. A contemplação do mundo se baseia nos resultados da práxis humana. O homem só conhece a realidade na
medida em que ele cria a realidade humana e se comporta antes de tudo como ser prático.

Achei esse trecho incrível, tenho que ler esse livro logo.

Uma das questões que eu tinha na cabeça era como levar uma prática mais alinhada à museologia social quando se trabalha em uma instituição que não necessariamente tem esse alinhamento? Chegamos a falar sobre isso, no curso, que é possível atuar diversos ambientes e organizações, fazendo uso do que já está posto e questionando. A questão seria mais de abordagem e perspectiva, dentro da atuação individual.

Penso que essa postura tem a ver com o próprio surgimento da Nova Museologia:

Enfim, a Nova Museologia pode ser então caracterizada como um movimento, organizado a partir da iniciativa de um grupo de profissionais de diferentes países, aproveitando as brechas (…) as “fissuras”, dentro do sistema de políticas culturais instituídas …

Sobre a metodologia, é defendido o uso de pesquisa-ação. A autora cita Hugues de Varine (1987, p. 101) e a importância da ação:

É na ação que uma comunidade se forja e se faz reconhecer como força política e entidade social de forma total. É na ação que ela adquire suas características próprias, que ela existe. Ela é porque age, e cada um dos seus membros, participando de uma tal ação, fará a prova e tomará consciência de sua capacidade autônoma de pensar e de ser. Assim, apoiando-se uma sobre a outra, comunidade e indivíduo afinarão progressivamente sua experiência, seu conhecimento dos obstáculos e dos meios, a expressão dos objetivos e dos métodos.

Sobre pesquisa-ação, Michel Thiolent Metodologia da Pesquisa-ação (1986, p. 14) define:

(…) tipo de pesquisa social de base empírica, que é concebida e realizada em estreita associação com uma ação ou solução de um problema coletivo, no qual, os pesquisadores e os participantes representativos da situação ou do problema estão envolvidos de modo cooperativo ou participativo.

A autora cita ainda que Brandão (Pesquisa Participante –1982) comenta que em vez de se preocupar somente com a exlicação dos fenômenos sociais depois que eles aconteceram, o objetivo da pesquisa-ação é de favorecer a aquisição de um conhecimento e de uma consciência crítica do processo de transformação pelo qual o grupo esta vivenciando, para que desempenhe de forma cada vez mais lúcida e autônoma seu papel de protagonista e ator social.

Eu não sabia que existia pesquisa ação até alguns anos atrás, e nunca tinha ouvido falar dela durante a graduação. Nesse maravilhoso artigo, Santos ainda cita um resumo dos princípios da pesquisa ação, feito por Thiolent (1986) que pode ajudar a entendermos um pouco sobre essa metodologia:

  • há uma explícita interação entre pesquisadores e as pessoas
    implicadas na situação investigada;
  • dessa interação resulta a ordem de prioridade dos problemas a
    serem pesquisados e das soluções a serem encaminhadas sob
    forma de ação concreta;
  • objeto da investigação não é constituído pelas pessoas e sim pela
    situação social e pelos problemas de diferentes naturezas
    encontrados na situação investigada; (aqui me parece que se aproxima dos métodos de aprendizagem a partir de problemas)
  • objetivo da pesquisa-ação consiste em resolver ou, pelo menos,
    em esclarecer os problemas da situação observada;
  • há, durante o processo, um acompanhamento das decisões e das
    ações e de toda a atividade intencional dos atores da situação;
  • a pesquisa não se limita a uma forma de ação (risco de ativismo);
    pretende-se aumentar o conhecimento dos pesquisadores e o
    conhecimento ou o nível de consciência das pessoas e grupos
    considerados.

Longe de proporcionar um cenário para uma auto-ilusão do leitor sonhador, no fim do artigo, a autora é bastante clara: “é necessário ressaltar que os princípios da Nova Museologia não são a “panacéia” para a solução de todos os problemas dos museus e da Museologia. Ela encerra com uma referência de Keneth Walker, citado por Mendonça (1987):

Tem-se chegado a um ponto que se sabe que a participação não é uma fórmula mágica, mas que requer um trabalho paciente. Nenhuma das formas de participação que foram aplicadas até agora resolveram completamente os problemas. É muito possível que esses problemas, como tantos outros de relações humanas,
nunca sejam resolvidos de forma definitiva. Mais importante que buscar soluções totais é reconhecer que se trata de um processo prolongado de aprendizagem, cuja primeira etapa é aprender a aprender

Recomendo a leitura completa do artigo, para ter acesso na íntegra, (publicado nos Cadernos de Sociomuseologia da Universidade Lusófona No 18 – 2002 p. 110): http://revistas.ulusofona.pt/index.php/cadernosociomuseologia/article/view/363/272 e clique em “transferir este ficheiro pdf”. Prontinho!  😉

Esse post foi uma tentativa de dividir um pouco esse artigo que me disse tanto! Selecionei apenas esses trechos para não acabar compilando o texto inteiro. Se algo contribuiu, ou dialogou com suas angústias, fique à vontade pra deixar um comentário. 🙂

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