Experiência

onde está o desenho?

Pois a vida não se apresenta como uma sequência ou corrente uniforme e sem interrupções. Constitui-se de histórias, cada uma com seu próprio tema, seu próprio princípio e movimento dirigido para sua terminação, cada uma com seu próprio e particular movimento rítmico; cada uma com sua própria qualidade não-repetível que a impregna.
A experiência constitui-se de  um material cheio de incertezas, movendo-se em direção a sua consumação através de uma série de variados incidentes.

John Dewey citado por Rejane Coutinho em Vivências e experiências a partir do contato com a Arte.

linhasiluminadasfotos feitas por mim durante experimentação na Exposição Lugar para Desenhar, de Stela Barbieri, que esteve no Sesc Belenzinho. Para saber mais sobre o projeto e para saber um pouco sobre a minha experiência nele https://lanascidades.wordpress.com/2015/06/11/sobre-criancas-arquitetura-brincar-e-escola-de-educacao-infantil/

Status

Sonho

O ambiente era claro, com amplas janelas de vidro. Estou grávida. Dois meses de gestação e uma barriguinha arredondada.
Só olho para a barriga quando encontro a Lúcia que está numa correria, indo para outro lugar e ela pergunta do tempo.
Estou feliz. Começo a andar em direção a outro ambiente.

Corta.

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Imagem

Ah, se eu fosse um livro!

Num dia nublado, resolvemos sair de casa. Fomos caminhando até o Parque da Água Branca, pois estava acontecendo uma Feira Vegana, dentro do Arraial Cultural. Após dar uma volta na feira, decidimos passear um pouquinho pelo parque.

Apesar do frio, estava bem gostoso. Nessa pequena exploração do parque, resolvi finalmente entrar no Espaço de Leitura. Fiquei bem encantada com o esquema de funcionamento do local, pois há bastante liberdade para entrar e ver os livros, sentar e ler um pouco. Eu tinha ficado especialmente curiosa pra saber como estava o espaço depois das modificações que eles fizeram para a exposição “Grimório –  em busca dos objetos mágicos”.

Ah, descobri que eles possuem um blog, onde divulgam as ações que acontecem no espaço: https://leituranoparque.wordpress.com/

Entrei aleatoriamente com o marido nos quiosques, e foi aí que a mágica aconteceu. Lá no meio de outros livros, estava ele: “Se eu fosse um livro”. O nome, a capa, tudo me chamou atenção. Fiquei bem encantada, então resolvi compartilhar aqui.

Detalhe da capa, foto minha do livro do espaço.

Detalhe da capa, foto minha do livro do espaço.

O livro foi escrito por José Jorge Letria, que é poeta e português e foi ilustrado pelo seu filho André Letria, numa parceria para fazer a obra.  Eles receberam o Prêmio Junceda Ibéria, concedido em Barcelona pela Associação Profissional de Ilustradores da Catalunha pelo trabalho. E pela pesquisa que fiz rapidamente, é indicado como livro paradidático ou sugestão de leitura para crianças de 6 a 10 anos.

É uma delícia, e, na minha opinião, se não tivesse as ilustrações continuaria sendo riquíssimo, especialmente para “adultos” 😉 Mais um incrível exemplo de como o que está classificado como literatura infantil não deve ficar restrito a este público. 🙂

Além de falar da poética dos livros, e da relação que as pessoas estabelecem com as leituras, acho que o livro fala muito de quem somos e leva a um exercício de quem gostaríamos de ser, ou do que gostaríamos de escrever.

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minha passagem favorita

O livro foi publicado aqui no Brasil pela Editora Globo, e está disponível para compra no site das Casas Bahia (!), por R$27,81.  Foi onde encontrei pelo menor preço. Ou você pode visitar o Espaço de Leitura na próxima visita ao Parque da Água Branca e fazer uma divertida “caça ao livro”.

Tive uma grande surpresa pois encontrei uma animação feita a partir desse livro no Vimeo. Então, para os que preferem este formato:

Tenho gostado de escrever sobre as minhas leituras pois tenho a chance de rever, reler e revivê-las no momento da escrita. As fotos eu tirei com o celular mesmo, desculpe pela baixa qualidade.

Até o próximo post,

Larissa.

“Smarterphone” e “somos todos autômatos?”

Esse é um post-provocação.

Vamos imaginar a seguinte cena, baseando-nos em nossas experiências pessoais: entramos no metrô, olhemos ao nosso redor por alguns segundos, vamos contar quantas pessoas estão no celular. Quantas pessoas estão com fones de ouvido no máximo? Quantas pessoas estão lendo?

Provavelmente o maior número é de pessoas no celular, seja mexendo no celular, ouvindo música do celular. É como se precisássemos daquilo desesperadamente, para conseguirmos suportar aquela rotina massificante.

Ou, então, não. Escolhemos fugir para onde os smartphones nos levam, mesmo quando podemos estar fazendo outra coisa, com alguém de quem gostamos.

coupleBanksy  “Mobile Lovers”

Segundo o Michaelis online:

autômato
au.tô.ma.to
sm (gr autómatos) 1 Figura que imita os movimentos dos seres animados. 2 Mec Máquina, aparelho ou dispositivo que executa certos trabalhos ou funções, tais como alimentar ou regular uma máquina, vender mercadorias etc., comumente efetuados por uma pessoa. 3 Pessoa inconsciente e incapaz de ação própria e que se deixa dirigir por outrem.

Ou se deixa dirigir por objetos?

Esse vídeo viralizou um tempo atrás, bacaninha pra refletirmos um pouquinho sobre que raios está acontecendo com todos nós? E, não, não adianta culparem a geração Y, os millenials… É assustador o que vem acontecendo.  Por um lado, estamos o tempo todo atentos e dependentes do que está por exemplo nas redes sociais, para nos manter conectados com amigos e com o mundo e, por outro, usam-se avatares para cometer violências na rede e propagar o ódio.

Com medo dessa imagem? Ela ficou famosa por ser um chamado “Easter Egg” saiba mais sobre isso aqui.  Pena que o artista “errou”, acho que passamos muito mais tempo olhando pra tela e usando os dois dedos na tela touch do que segurando na orelha.

Vídeo

“A menina e o tambor” e nossas luzinhas

Há alguns dias atrás, dando uma olhada em um dos grupos que faço parte no facebook, me deparei com uma surpresa muito agradável: a animação A menina e o tambor, um curta de animação dirigido e animado por Thiago Sacramento.

Essa linda animação que foi feita para a série “Livros Animados”, em exibição no Canal Futura, a partir do livro “A Menina e o Tambor” de Sonia Junqueira. Ilustrações de Mariângela Haddad. Trilha sonora original composta por Fernando Moura.

A minha impressão é que o curta trata sobre sensibilidade, percepção, desejo de mudança, rejeição, sobre ser ignorada. No dia em que assisti, lembro que me identifiquei muito com a personagem principal, porque tem dias que, por mais que a gente use a nossa sensibilidade e tente, tente, tente chegar nas pessoas, nada dá certo.

Também tem a ver com uma busca pessoal, pois ela faz tentativas de aproximação diversas antes de se encontrar no tambor. Nessas horas é como se a nossa “luzinha” interna, aquilo que nos move, desse uma apagada, diminuísse o brilho, sabe?

Nesse sentido, a animação fala também sobre existência e resistência e essa frase que encontrei por aí,  cabe muito bem sobre essa questão. Beau Taplin, Shed your sharp edges. (Obs.: sei quase nada sobre esse ser, parece que é australiano, e já escreveu vários livros. Saiba mais aqui na página dele).

“Softness is not weakness.
It takes courage to stay delicate
in a world this cruel.”

em tradução livre: Sensibilidade não é fraqueza. É preciso coragem pra se manter delicad@ em um mundo cruel como esse.

De acordo com a editora, o livro tem como assunto e tema “o poder de emocionar e de arrebatar da percussão, cuja batida binária lembra as batidas do coração”. ❤ Fiquei com muita vontade de ler o livro! Com certeza é possível usá-lo para falar de questões de preconceito, cultura afro, música, artes, experiências pessoais.

Pra quem se interessou, o livro está disponível aqui, por R$34,00. E a própria editora Autêntica disponibiliza no site sugestões de uso dos livros infantis e juvenis em sala de aula, veja aqui.

O Homem Duplicado – José Saramago

Terminei de ler essa semana o livro O Homem Duplicado do José Saramago. Confesso que fazia um tempo que não tinha essa sensação boa de satisfação que a gente tem quando termina um livro. O que é meio que absurdo, pois ganhei este livro no ano passado, na Festa do Livro da USP, de presente da minha mãe. Ah, inclusive foi um trecho dele que eu publiquei há uns posts atrás aqui no blog.

Eu tive a impressão de que 70 % do livro é em um ritmo mais lento, dos trinta em diante a história corre bem mais rápido e termina em desdobramentos nas últimas 30 páginas que nem imaginávamos. Essas aproximações são apenas aproximações mesmo, viu? Não manjo nem um pouco de contas. 😛

Uma das coisas mais interessantes é o flerte do fantástico com situações com as quais os leitores podem se identificar, como a relação de Tertuliano Máximo Afonso “sossegado professor de história” com os colegas de trabalho, sua conduta profissional, vida amorosa e relação com a mãe.

Selecionei alguns trechos pra compartilhar aqui. O primeiro deles trata justamente sobre as palavras, é da ocasião de uma conversa de Tertuliano com a mãe (na minha edição da Companhia das Letras isso se dá na página 209:

As palavras são o diabo, nós a crer que só deixamos sair da boca para fora aquelas que nos convêm, e de repente aparece uma que se mete pelo meio, não vimos de onde surgiu, não era para ali chamada, e, por causa dela, que não é raro termos depois dificuldade em recordar , o rumo da conversa muda bruscamente de quadrante, passamos a afirmar o que antes negávamos, ou vice-versa (…)

Olha, não vou interpretar o livro, vou me restringir a dizer que gostei bastante. Também não vou analisar nada. No entanto, algo que me chamou atenção foi o modo que as mulheres aparecem nesse livro: Maria da Paz (meio de se chegar a Antonio Claro), a mãe (que o impulsiona, é muito mais retratada como forte do que como frágil, uma ‘Cassandra’), Helena – quando lerem, ou se já leram, pensem nisso ou reparem. Ou se você tem alguma impressão diferente, deixe aqui nos comentários pra conversarmos. 🙂

Uma prévia: na página de 260, a mãe de Tertuliano, dona Carolina, diz:

Há uma parte de ti que dorme desde que nasceste, e o meu medo é que um dia destes sejas obrigado a acordar violentamente.

Ao que Tertuliano responde:

O que a mãe tem é vocação para Cassandra

E isso já diz bastante.

Tem também um trecho em que a história está assim (p. 262):

Chegou ao fim da tarde, arrumou o carro em frente da porta, e ágil, flexível, bem-disposto, como se não tivesse acabado acabado de fazer, sem parar uma só vez, mais de quatrocentos quilómetros, subiu a escada com a ligeireza de um adolescente, nem dava pelo peso de uma mala que, como é natural, carregava mais à volta que à ida, e pouco lhe faltou para entrar em casa em passo de dança.

Ou seja, estamos embarcados naquela sensação desse personagem, mal digerimos esse trecho lindamente escrito, quando logo, em seguida (e em se tratando de Saramago é em seguida mesmo) a história pausa e temos aquele “momento metalinguagem” que eu adoro!

De acordo com as convenções tradicionais do género literário a que foi dado o nome de romance e que assim terá de continuar a ser chamado enquanto não se inventar uma designação mais conforme às suas actuais configurações, esta alegra descrição, organizada numa sequência simples de dados narrativos em que, de modo deliberado, não se permitiu a introdução de um único elemento de teor negativo, estaria ali, arteiramente, a preparar uma operação de contraste que, dependendo dos objectivos do ficcionista, tanto poderia ser dramática como brutal ou aterradora, por exemplo, uma pessoa assassinada no chão e ensopada no seu próprio sangue, uma reunião consistorial de almas do outro mundo (…)

Uma verdadeira aula, não?

Pra quem gostou e pensa em adquirir o livro, fiz uma breve pesquisa:

Ah, pesquisando pra escrever esse post, descobri que foi feito um filme baseado no livro, o nome do filme em inglês é Enemy (inimigo) o que, na minha opinião já é um estrago… O filme foi dirigido por Denis Villeneuve, e tem como protagonista Jake Gyllenhaal, para mais informações, veja a ficha dele no IMDB. Será que vale a pena assistir?

cartaz do filme daqui.