Nota

Clarice, baratas e crises existenciais

foto por Ricardo Hino, direção Débora Rosa e concepção Larissa Oyadomari

foto por Ricardo Hino, direção Débora Rosa e concepção Larissa Oyadomari

Numa das levas de livros que eu quis trazer pra minha casa (como ainda não tenho espaço suficiente para guardar todos, está sendo bem aos poucos a mudança dos livros) eu encontrei A Paixão segundo G.H. Percebi que tinha um marca página quase no fim do livro. Eu lembro que comecei a ler o livro faz uns três ou quatro anos pelo menos. Compramos esse livro numa promoção em algum site, junto com Laços de Familia (livro de contos, que adoro, bem o meu estilo, quando lembrar de trazê-lo pra cá, farei um post sobre).

Eu me auto-desafiei a (re)lê-lo! E não foi nada fácil, apesar do livro ser pequeno (179 páginas). Mas fiquei feliz por ter finalizado essa leitura que me foi indicada ainda no Ensino Médio pela querida Su.

É bem difícil escrever sobre esse livro, e nem me atrevo a tentar fazer uma resenha dele. O que me restou foi compartilhar com vocês alguns trechos que me afetaram especialmente.

Vale falar, se tem uma coisa que é difícil é passar ilesa por essa leitura. Fiquei mal, abalada, logo de cara. E agora, vejo que foram os trechos iniciais que falaram algo mais pra mim. Como se fosse algo pra se ler num momento em que eu precisava ler aquilo para refletir e entrar em uma crise existencial (ou não) .

Quando um livro começa com um alerta, você já sabe que tem que se preparar psicologicamente:

Este livro é como um livro qualquer.

Mas eu ficaria contente se fosse lido apenas por pessoas de alma já formada. Aquelas que sabem que a aproximação, do que quer que seja,se faz gradualmente e penosamente – atravessando inclusive o oposto daquilo que se vai aproximar.

Aquelas pessoas que, só elas, entenderão bem devagar que este livro nada tira de ninguém.

Logo nas primeiras páginas, sobre essência do ser.

(…) Perdi alguma coisa que me era essencial, e que já não me é mais. Não me é necessária, assim como seu eu tivesse perdido uma terceira perna que até então me impossibilitava de andar mas que fazia de mim um tripé estável. Essa terceira perna eu perdi. E voltei a ser uma pessoa que nunca fui.

Da (des)organização…

(…)p.12

Estou desorganizada porque perdi o que não precisava? (…)

É difícil perder-se . É tão difícil que provavelmente arrumarei depressa um modo de me achar, mesmo que achar-me seja de novo a mentira de que vivo. Até agora achar-me era já ter uma ideia de pessoa e nela me engastar: nessa pessoa organizada e me encarnava, e nem mesmo sentia o grande esforço de construção que era viver. A ideia que eu fazia de pessoa vinha de minha terceira perna, daquela que me plantava no chão. Mas e agora? estarei mais livre?

Não. Sei que ainda não estou sentindo livremente, que de novo penso porque tenho por objetivo achar – e que por segurança chamarei de achar o momento em que encontrar um meio de saída. (…) Se tiver coragem, eu me deixarei continuar perdida. Mas tenho medo do que é novo e tenho medo de viver o que não entendo – quero sempre ter a garantia de pelo menos estar pensando que entendo, não sei me entregar à desorientação. Como é que se explica que o meu maior medo seja exatamente em relação:a ser? e no entanto não há outro caminho. Como se explica que o meu maior medo seja exatamente o de ir vivendo o que for sendo? (…)

p.. 13

E uma desilusão. Mas desilusão de quê? se, sem ao menos sentir, eu mal devia estar tolerndo minha oganização apenas construída? Talvez desilusão seja o medo de não pertencer mais a um sistema. No entanto se deveria dizer assim: ele está muito feliz porque finalmente foi desiludido. O que eu era antes não me era bom. mas era desse não bom que eu havia organizado o melhor: a esperança. De meu próprio mal eu havia criado um bem futuro. O medo agorá é que meu novo modo não faça sentido? Mas por que não me deixo guiar pelo que for acontecendo? Terei que correr o sagrado risco do acaso. E substituitei o destino pela probabilidade.

sobre infância

No entanto na infância as descobertas terão sido como num laboratório onde se acha o que se achar? Foi como adulto então que eu tive medo e criei a terceira perna? Mas como adulto terei a coragem infantil de me perder? perder-se significa ir achando e nem saber o que fazer do que se for achando.

Pra quem ficou interessado (a) , cotação de preços na estante virtual aqui.

Até a próxima,

Larissa.

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Experiência

onde está o desenho?

Pois a vida não se apresenta como uma sequência ou corrente uniforme e sem interrupções. Constitui-se de histórias, cada uma com seu próprio tema, seu próprio princípio e movimento dirigido para sua terminação, cada uma com seu próprio e particular movimento rítmico; cada uma com sua própria qualidade não-repetível que a impregna.
A experiência constitui-se de  um material cheio de incertezas, movendo-se em direção a sua consumação através de uma série de variados incidentes.

John Dewey citado por Rejane Coutinho em Vivências e experiências a partir do contato com a Arte.

linhasiluminadasfotos feitas por mim durante experimentação na Exposição Lugar para Desenhar, de Stela Barbieri, que esteve no Sesc Belenzinho. Para saber mais sobre o projeto e para saber um pouco sobre a minha experiência nele https://lanascidades.wordpress.com/2015/06/11/sobre-criancas-arquitetura-brincar-e-escola-de-educacao-infantil/

O Homem Duplicado – José Saramago

Terminei de ler essa semana o livro O Homem Duplicado do José Saramago. Confesso que fazia um tempo que não tinha essa sensação boa de satisfação que a gente tem quando termina um livro. O que é meio que absurdo, pois ganhei este livro no ano passado, na Festa do Livro da USP, de presente da minha mãe. Ah, inclusive foi um trecho dele que eu publiquei há uns posts atrás aqui no blog.

Eu tive a impressão de que 70 % do livro é em um ritmo mais lento, dos trinta em diante a história corre bem mais rápido e termina em desdobramentos nas últimas 30 páginas que nem imaginávamos. Essas aproximações são apenas aproximações mesmo, viu? Não manjo nem um pouco de contas. 😛

Uma das coisas mais interessantes é o flerte do fantástico com situações com as quais os leitores podem se identificar, como a relação de Tertuliano Máximo Afonso “sossegado professor de história” com os colegas de trabalho, sua conduta profissional, vida amorosa e relação com a mãe.

Selecionei alguns trechos pra compartilhar aqui. O primeiro deles trata justamente sobre as palavras, é da ocasião de uma conversa de Tertuliano com a mãe (na minha edição da Companhia das Letras isso se dá na página 209:

As palavras são o diabo, nós a crer que só deixamos sair da boca para fora aquelas que nos convêm, e de repente aparece uma que se mete pelo meio, não vimos de onde surgiu, não era para ali chamada, e, por causa dela, que não é raro termos depois dificuldade em recordar , o rumo da conversa muda bruscamente de quadrante, passamos a afirmar o que antes negávamos, ou vice-versa (…)

Olha, não vou interpretar o livro, vou me restringir a dizer que gostei bastante. Também não vou analisar nada. No entanto, algo que me chamou atenção foi o modo que as mulheres aparecem nesse livro: Maria da Paz (meio de se chegar a Antonio Claro), a mãe (que o impulsiona, é muito mais retratada como forte do que como frágil, uma ‘Cassandra’), Helena – quando lerem, ou se já leram, pensem nisso ou reparem. Ou se você tem alguma impressão diferente, deixe aqui nos comentários pra conversarmos. 🙂

Uma prévia: na página de 260, a mãe de Tertuliano, dona Carolina, diz:

Há uma parte de ti que dorme desde que nasceste, e o meu medo é que um dia destes sejas obrigado a acordar violentamente.

Ao que Tertuliano responde:

O que a mãe tem é vocação para Cassandra

E isso já diz bastante.

Tem também um trecho em que a história está assim (p. 262):

Chegou ao fim da tarde, arrumou o carro em frente da porta, e ágil, flexível, bem-disposto, como se não tivesse acabado acabado de fazer, sem parar uma só vez, mais de quatrocentos quilómetros, subiu a escada com a ligeireza de um adolescente, nem dava pelo peso de uma mala que, como é natural, carregava mais à volta que à ida, e pouco lhe faltou para entrar em casa em passo de dança.

Ou seja, estamos embarcados naquela sensação desse personagem, mal digerimos esse trecho lindamente escrito, quando logo, em seguida (e em se tratando de Saramago é em seguida mesmo) a história pausa e temos aquele “momento metalinguagem” que eu adoro!

De acordo com as convenções tradicionais do género literário a que foi dado o nome de romance e que assim terá de continuar a ser chamado enquanto não se inventar uma designação mais conforme às suas actuais configurações, esta alegra descrição, organizada numa sequência simples de dados narrativos em que, de modo deliberado, não se permitiu a introdução de um único elemento de teor negativo, estaria ali, arteiramente, a preparar uma operação de contraste que, dependendo dos objectivos do ficcionista, tanto poderia ser dramática como brutal ou aterradora, por exemplo, uma pessoa assassinada no chão e ensopada no seu próprio sangue, uma reunião consistorial de almas do outro mundo (…)

Uma verdadeira aula, não?

Pra quem gostou e pensa em adquirir o livro, fiz uma breve pesquisa:

Ah, pesquisando pra escrever esse post, descobri que foi feito um filme baseado no livro, o nome do filme em inglês é Enemy (inimigo) o que, na minha opinião já é um estrago… O filme foi dirigido por Denis Villeneuve, e tem como protagonista Jake Gyllenhaal, para mais informações, veja a ficha dele no IMDB. Será que vale a pena assistir?

cartaz do filme daqui.

Um daqueles textos que fazem diferença na vida

Eu tive a alegria de conseguir me inscrever no curso “Introdução à Museologia Social” com o Professor Mario Chagas, que acontece no Centro de Pesquisa e Formação do SESC.

O pessoal organizou uma apostila com diversos textos, sendo um deles o “Reflexões sobre a Nova Museologia” de Maria Célia Teixeira Moura Santos. E, sabe quando o texto faz diferença na sua vida? É como se, enquanto você vai lendo, vários “cliques” se dessem na sua cabeça e esclarecessem temas e estabelecessem relações que antes você não entendia/enxergava. Além disso, é como se contribuísse para pensar em questões que tem flutuado na sua cabeça, dia-a-dia, e tomadas de decisão ultimamente.

Resolvi então compartilhar um pouco desse texto aqui no blog, também porque ela traz vários autores que são bons pra quem quiser se aprofundar no tema.

Um dos momentos fundadores da Nova Museologia é a Mesa Redonda de Santiago, Chile 1972.

Em Santiago, é dado o pontapé inicial para uma ação museológica que considera o sistema lingüístico empregado pelas comunidades, reconhece que o ser humano move-se em um mundo essencialmente simbólico e compreende, também, que o cotidiano não é apenas um resíduo.

Mais adiante, sobre a noção de museu integral,

(…) a própria ideia de “meio” também se transformou: “é um sistema global de interferências biopsicossociais”

Gostaria de ter tido acesso a essa nova definição quando meus professores do fundamental II questionavam se era meio ambiente, e por que não “ele todo”.

Portanto, começa-se a delinear, em Santiago (…) o que, no nosso entender, é o marco mais significativo da evolução do processo museológico na contemporaneidade: a passagem do sujeito passivo e contemplativo para o sujeito que age e transforma a realidade.

Maria Célia cita ainda esse trecho que me deixou muito interessada a ler o livro do Kosik Dialética do Concreto (1976):

…a dialética da atividade e da passividade do conhecimento humano manifesta-se sobretudo no fato de que o homem, para conhecer as coisas em si, deve primeiro transformá-las em coisas para si; para conhecer as coisas como são independentemente de si, tem primeiro de submetê-las à própria práxis; para poder constatar como são elas quando não estão em contato consigo, tem primeiro de entrar em contato com elas. O conhecimento não é contemplação. A contemplação do mundo se baseia nos resultados da práxis humana. O homem só conhece a realidade na
medida em que ele cria a realidade humana e se comporta antes de tudo como ser prático.

Achei esse trecho incrível, tenho que ler esse livro logo.

Uma das questões que eu tinha na cabeça era como levar uma prática mais alinhada à museologia social quando se trabalha em uma instituição que não necessariamente tem esse alinhamento? Chegamos a falar sobre isso, no curso, que é possível atuar diversos ambientes e organizações, fazendo uso do que já está posto e questionando. A questão seria mais de abordagem e perspectiva, dentro da atuação individual.

Penso que essa postura tem a ver com o próprio surgimento da Nova Museologia:

Enfim, a Nova Museologia pode ser então caracterizada como um movimento, organizado a partir da iniciativa de um grupo de profissionais de diferentes países, aproveitando as brechas (…) as “fissuras”, dentro do sistema de políticas culturais instituídas …

Sobre a metodologia, é defendido o uso de pesquisa-ação. A autora cita Hugues de Varine (1987, p. 101) e a importância da ação:

É na ação que uma comunidade se forja e se faz reconhecer como força política e entidade social de forma total. É na ação que ela adquire suas características próprias, que ela existe. Ela é porque age, e cada um dos seus membros, participando de uma tal ação, fará a prova e tomará consciência de sua capacidade autônoma de pensar e de ser. Assim, apoiando-se uma sobre a outra, comunidade e indivíduo afinarão progressivamente sua experiência, seu conhecimento dos obstáculos e dos meios, a expressão dos objetivos e dos métodos.

Sobre pesquisa-ação, Michel Thiolent Metodologia da Pesquisa-ação (1986, p. 14) define:

(…) tipo de pesquisa social de base empírica, que é concebida e realizada em estreita associação com uma ação ou solução de um problema coletivo, no qual, os pesquisadores e os participantes representativos da situação ou do problema estão envolvidos de modo cooperativo ou participativo.

A autora cita ainda que Brandão (Pesquisa Participante –1982) comenta que em vez de se preocupar somente com a exlicação dos fenômenos sociais depois que eles aconteceram, o objetivo da pesquisa-ação é de favorecer a aquisição de um conhecimento e de uma consciência crítica do processo de transformação pelo qual o grupo esta vivenciando, para que desempenhe de forma cada vez mais lúcida e autônoma seu papel de protagonista e ator social.

Eu não sabia que existia pesquisa ação até alguns anos atrás, e nunca tinha ouvido falar dela durante a graduação. Nesse maravilhoso artigo, Santos ainda cita um resumo dos princípios da pesquisa ação, feito por Thiolent (1986) que pode ajudar a entendermos um pouco sobre essa metodologia:

  • há uma explícita interação entre pesquisadores e as pessoas
    implicadas na situação investigada;
  • dessa interação resulta a ordem de prioridade dos problemas a
    serem pesquisados e das soluções a serem encaminhadas sob
    forma de ação concreta;
  • objeto da investigação não é constituído pelas pessoas e sim pela
    situação social e pelos problemas de diferentes naturezas
    encontrados na situação investigada; (aqui me parece que se aproxima dos métodos de aprendizagem a partir de problemas)
  • objetivo da pesquisa-ação consiste em resolver ou, pelo menos,
    em esclarecer os problemas da situação observada;
  • há, durante o processo, um acompanhamento das decisões e das
    ações e de toda a atividade intencional dos atores da situação;
  • a pesquisa não se limita a uma forma de ação (risco de ativismo);
    pretende-se aumentar o conhecimento dos pesquisadores e o
    conhecimento ou o nível de consciência das pessoas e grupos
    considerados.

Longe de proporcionar um cenário para uma auto-ilusão do leitor sonhador, no fim do artigo, a autora é bastante clara: “é necessário ressaltar que os princípios da Nova Museologia não são a “panacéia” para a solução de todos os problemas dos museus e da Museologia. Ela encerra com uma referência de Keneth Walker, citado por Mendonça (1987):

Tem-se chegado a um ponto que se sabe que a participação não é uma fórmula mágica, mas que requer um trabalho paciente. Nenhuma das formas de participação que foram aplicadas até agora resolveram completamente os problemas. É muito possível que esses problemas, como tantos outros de relações humanas,
nunca sejam resolvidos de forma definitiva. Mais importante que buscar soluções totais é reconhecer que se trata de um processo prolongado de aprendizagem, cuja primeira etapa é aprender a aprender

Recomendo a leitura completa do artigo, para ter acesso na íntegra, (publicado nos Cadernos de Sociomuseologia da Universidade Lusófona No 18 – 2002 p. 110): http://revistas.ulusofona.pt/index.php/cadernosociomuseologia/article/view/363/272 e clique em “transferir este ficheiro pdf”. Prontinho!  😉

Esse post foi uma tentativa de dividir um pouco esse artigo que me disse tanto! Selecionei apenas esses trechos para não acabar compilando o texto inteiro. Se algo contribuiu, ou dialogou com suas angústias, fique à vontade pra deixar um comentário. 🙂

Sobre crianças, arquitetura e escola de educação infantil

Estava eu em um dos grupos do facebook sobre educação do qual faço parte, quando me deparei com a postagem desse texto.  Sem esperar muito. dei uma olhada na matéria e pulei direto pro TED, que insiro aqui. E, apesar das piadinhas (algo que me incomoda um pouco em TEDs, mas que eu entendo totalmente a necessidade) gostei bastante de vários pontos, pois dialogam com o que eu penso sobre as escolas de educação infantil, minha experiência como educadora na exposição Lugares (Stela Barbieri – Sesc Belenzinho fevereiro-maio 2015) e tudo mais.

Ufa, acho que o primeiro parágrafo ficou bem confuso, tudo-junto-e-misturado, mas ele sintetiza um pouco de tudo que está se cruzando e interligando na minha cabeça. Vou em ordem cronológica.

Uma pequena experiência que tive em uma escola infantil particular bilíngue foi como “entrevista” para uma vaga como teacher de crianças de 4 anos. A escola possui nome de um ‘pensador da educação’ mas não segue exatamente os pensamentos do mesmo. Mandei um email para uma vaga, e me chamaram pra entrevista, que no fim das contas foi uma imersão de 4 horas na escola. Durante essas quatro horas fui deixada sozinha com as crianças e tinha que falar primeiro em inglês e repetir (“só se elas parecerem não entender”) em português.

Foi uma primeira experiência na educação formal bem confusa pra mim. Depois me colocaram em uma quadra, onde as crianças não estavam lá para correr, mas para brincar com peças de um tipo de Lego. Alguns meninos estavam muito empolgados, correndo de um lado a outro, e usando a trave do gol como base para um carro flutuante que estavam construindo. Encurtando a história: no fim das contas, ele terminou sendo colocado de castigo, sentado num canto do lado dos armários das professoras e – quando fui ser entrevistada, a entrevistadora pediu pra ele me dar a cadeira e mandou ele ficar no chão (“I said on the floor”).

Antes de tudo, não estou aqui para julgar ninguém, mas no momento em que chegamos à parte da entrevista, comecei a falar coisas do tipo, achar o horário ruim etc, pois não achei que fosse conseguir trabalhar lá depois de ver essas coisas… Foi uma mistura de sentimentos: primeiro ficar muito feliz por ter sido chamada para a entrevista, poder usar o conhecimento de língua inglesa num trabalho, poder finalmente na vida trabalhar com crianças, e, de repente, fui jogada dentro de sala de aula e presenciei questões com as quais não sabia lidar.


Cheguemos ao presente, depois da minha primeira experiência como educadora numa exposição de arte contemporânea. Foi um verdadeiro presente poder iniciar minha atuação num locus tão privilegiado que foi a exposição “Lugares (para ler e para desenhar)” da artista plástica, educadora, contadora de histórias e pessoa maravilhosa Stela Barbieri.

Saiba mais sobre o projeto lugares aqui (portfólio disponível para download, do site da Stela), por se tratar de uma obra oficina, pude atuar como educadora-propositora-facilitadora e receber grupos diversos, inclusive crianças. Pretendo escrever um post só falando da minha vontade e decisão de ser educadora, então não entrarei em detalhes sobre a minha prática e jornada aqui.

Em uma das propostas de visita, eu convidava as crianças a desenhar um lugar para recebermos as pessoas, como seria, depois da nossa vivência no Lugar para Desenhar (onde o desenho se dava no espaço, com objetos sobre um tablado de madeira). Um dos aspectos que mais me chamou atenção foi a opinião deles sobre aquele lugar, e captei falas muito significativas.

“Esse lugar parece uma casa”, “Se aqui fosse uma casa, eu ia dormir ali” – “e eu ali, do seu lado”. A arquitetura, escolha de cores e materiais, todo o projeto foi muito bem pensado, e as crianças se sentiam à vontade e observavam tudo isso. Como pude ver nesse desenho:

desenho mobília (sim, a sorridente sou eu)

Em uma outra proposta, trabalhamos com a ideia de criar um lugar que gostaríamos que existisse na escola. As crianças estudam numa escola pública de período integral, que não possui muita área “ao ar livre”. Elas desenharam coisas como uma sala dos desejos (onde os desejos feitos se materializariam), sala da gravidade zero, piscina e coisas assim.

Dar a oportunidade delas poderem criar, do zero um lugar que desejassem era incrível.

Um dia, num desses grupos atendido por outra educadora, quando estavam todos em grupo no Lugar para Desenhar, uma das meninas teve problemas em dividir as coisas com as outras. Seu comportamento foi agressivo, e ela falou palavrões, ameaçando as colegas. Após a visita, fui observar o desenho feito por ela: um balão em formato de coração.


Tudo isso para falar que gostaria de mais escolas como essa do TED.

Um dos pontos que me toca na fala dele é que para mim é uma dificuldade saber até que ponto podemos deixar as crianças correrem riscos, pois se trata de uma visita pontual da escola na exposição, e normalmente (e infelizmente) aquela é a primeira e única vez em que elas estão nos vendo e experimentando aquele lugar.

Mas a fala de Takaharu Tezuka, me fez pensar em tudo isso, na necessidade de espaço, de cair, ralar o joelho, sujar a roupa de terra… E se não temos espaço pra isso em casa, nem na cidade, e a rua é vista como um perigo atualmente, então essas crianças deveriam ter pelo menos a escola. E a escola deveria ser assim, como um lugar também de liberdade. Porque se não é, se não estamos atentos, deixamos passar coisas incríveis que os olhares das crianças nos mostram.

O ambiente é visto como algo que educa a criança; na verdade ele é considerado o “terceiro educador”, juntamente com a equipe.

Lella Gandini (1999), citação retirada do livro de Stela Barbieri Interações: onde está a arte na infância (recomento muito!). A editora, Blucher, disponibiliza uma preview aqui.


Esse primeiro texto ficou meio confuso, mas queria muito escrever sobre isso! E, é por essas e outras que quero muito trabalhar com primeira infância, e estou pensando em fazer pedagogia.

viver, respirar e escrever

Quem gosta de muitas coisas sempre se depara com a dificuldade de conciliar todas, de ter tempo pra se dedicar a cada uma delas. Ainda mais tendo que lidar com a “vida adulta”, pensar em casamento, pensar se vai fazer ‘festenha’ de casamento, ler sobre arte contemporânea, arte moderna, e arte na infância, tentar arrumar tempo para cozinhar…
Estou com a ideia, já há algum tempo, de criar posts mais sobre a minha rotina, aqui no blog, e ver o feedback que recebo. Afinal, o não é sempre garantido, que tal tentar o sim, quem sabe alguém se interessa? Acho que vou aproveitar pra falar também de como foi mudar pra um apartamento fora da casa dos meus pais, novo trabalho, vida acadêmica (ou ausência dela), receitas, vegetarianismo, e coisa e tal.